A canção Tristeza do jeca, escrita por Angelino de Oliveira, em 1918, foi eleita o maior clássico da música sertaneja de raiz brasileira. A votação foi promovida pelo jornal Folha de São Paulo com dezesseis personalidades ligadas ao meio musical, entre cantores, críticos, estudiosos, historiadores da música e fãs.
A música foi gravada por inúmeros artistas: Sérgio Reis, Zezé Di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, Almir Sater.
A letra apresenta variações em cada gravação. Escolhi a versão da dupla Paula Fernades e Renato Teixeira.
Vou analisá-la na perspectiva da literatura. Qual é a origem do termo Jeca? O criador da figura do jeca na cultura brasileira foi o escritor Monteiro Lobato. O personagem Jeca Tatu virou símbolo do homem rural, desanimado, triste, sem recurso para nada, sem vontade de fazer nada.
Na canção, o motivo do sofrimento do eu poético é o fato de ser jeca, viver no mato, onde até o jeito de falar é triste.
Outra interpretação plausível para esta canção é o termo jeca que denota um sujeito caipira que geralmente tem conotação pejorativa. O termo caipira/jeca recebe, de fato, essa conotação negativa (sujeito abobalhado, desconfiado, rude, preguiçoso, grosseiro...). Essa concepção decorre da chamada ideologia da modernização, que opõe cidade e campo, e o caipira, representante do campo, significa "atraso". O próprio Lobato criou a figura do Jeca Tatu com essas características, embora posteriormente tenha confessado seu arrependimento e criado a personagem Zé Brasil, também um pobre homem do campo que aos poucos se conscientiza de que sua situação decorre das injustiças sociais a que é sumetido.
O nível de linguagem empregado na letra da canção Tristeza do jeca é uma variante conhecida como caipira, que se caracteriza por desprezar a concordância (versos singelo); reduzir o final das palavras (sou-sô); substituir o fonema /lh/ pelo fonema /i/ (galho-gaio). Sendo que esse não é um dialeto menor, apenas difere da variedade-padrão da língua.